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Como Nick Allport trouxe a cena psych para o Ribatejo

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Nick Allport
Foi no pequeno bar da praia fluvial de Valada que entrevistámos Nick Allport, promotor do Reverence Festival Valada.
É um tipo porreiro que, à procura de um local sossegado para viver, trouxe algumas das maiores bandas alternativas do mundo ao Cartaxo: Psychic TV e A Place to Bury Strangers, entre outras.
Agora quer repetir a experiência, mas com 58 bandas em dois dias. Descobrimos que há três palcos e uma experiência que se quer portuguesa. Descobrimos bandas que estão na forja para 2015.
Senhoras e senhores,  we are pleased to present… Nick Allport

Fernando Valente – Como é que um tipo da cena psych londrina veio viver para o Ribatejo?

Nick Allport – A minha mulher, Vanessa, é portuguesa mas cresceu em Londres. Chegámos a uma altura em que quisemos  mudar para um sítio mais sossegado e ter filhos.

Eu cresci em West Wales na outra ponta de Inglaterra, onde não se passa nada. Ainda pensámos em mudarmos-nos para lá, mas o tempo é horrível e,  apesar de ser calmo, é muito longe. Concluímos que vir para Portugal seria tão fácil como ir para lá. Não queríamos ir para Lisboa, porque não é o que procurávamos.

Temos amigos em Benfica do Ribatejo que é já ali ao lado. Conhecíamos Santarém e Almeirim.

Algumas pessoas falaram-nos do Cartaxo e acabámos por vir para o Casal do Paul, perto de Almoster, onde ficámos cerca de 3 anos. Em dezembro de 2010, mudámos para Porto de Muge e adorámos a zona. Criamos os nossos filhos aqui, é um sítio excelente e sossegado para se viver.  Também gostamos de ir a Lisboa às vezes.

De onde veio o teu gosto por Psych, Shoe Gazing, Stoner e essas cenas? 

Nick Allport – Basicamente, eu cresci a ouvir música em casa e no carro. A minha mãe era grande fã de Bob Dylan, John Denver e Kate Bush, entre outros. Quando era mais velho comecei a ouvir o John Peel (Radialista, crítico e DJ) e descobri Cocteau Twins, The Smiths, U2 e esse tipo de cenas.

Nick Allport

Em 1985, mudei-me para Londres e comecei a ver concertos ao vivo. As bandas que eu queria mesmo ver,  The Smiths, Jesus and Mary Chain, e assim, nunca atuavam, tocavam uma vez por ano, vá.

Nick Allport

Comecei a ver bandas menos conhecidas, tipo My Bloody Valentine, Spacemen 3 e Psychic TV, Psychic TV até eram conhecidos, mas eram bandas mais pequenas que estavam na mesma onda das que falei antes, percebes?

Comecei a ir a concertos, a dar-me com as mesmas pessoas e a entrar na onda. Foi uma época muito fixe para a música. Foi assim que conheci esse tipo de bandas. Na altura, iniciei também uma Fanzine e uma editora (Cheree Records).

Como é que as Cartaxo Sessions nasceram?

Nick Allport – Quando vim para Portugal em 2009, estava a criar uma editora em Londres com o meu irmão Robin e o meu amigo Dunk, a Club AC30. Não estava a contar envolver-me tanto em música novamente mas acabei por colaborar com eles. A Club AC30 teve a oportunidade rara de colocar os Ringo Deathstarr em tourné com os Smashing Pumpkins e os últimos dois concertos aconteceram em dezembro de 2011 no Campo Pequeno em Lisboa.

No fim do concerto no sábado, os Ringo tiveram um dia de descanso, antes de viajarem para um concerto no Japão no domingo e ficaram na minha casa em Porto de Muge.

A única pessoa que eu conhecia no Cartaxo e estava dentro da cena da música, era o Ricardo Silvestre. Ele conhecia o Marco Guerra do Centro Cultural e organizámos tudo para fazer um concerto no Cartaxo. O Marco arranjou os Qwentin para fazerem a primeira parte do espetáculo.  Nunca faria um concerto no Cartaxo com uma banda que tocou com os Smashing Pumpkins em Lisboa, porque seria suícidio e não havia público. Acabaram por vir 95 pessoas ver uma banda do Texas, o que é excelente.

Nick Allport

A partir daí eu e o Marco, quisemos fazer mais concertos destes. Eu tenho os contactos e consigo trazer bandas destas. Formámos e registámos o Coletivo Cartaxo Sessions para podermos usar o Centro Cultural e começámos à procura de bandas… Acabámos por ter grandes nomes a tocarem cá.

Algum desses concertos foi memorável?

Nick Allport – O primeiro grande concerto foi Psychic TV. Uma banda mesmo grande, difícil de pôr em palco em que tivemos de alugar equipamento. Foi um grande evento para organizar.

Acabou por correr muito bem, mas foi bué stressante. Eles também adoraram e disseram que foi o melhor espetáculo da tourné. Aquele local é excelente para este tipo de concertos e o palco é gigante. Tivémos também os ecrãs por trás deles, tudo contou para ser um concerto excelente.

Nick AllportEste foi o primeiro concerto que foi mesmo, mesmo grande. Talvez por ter sido um “clássico”. Foi mesmo excelente.

Depois tivemos também os “A Place to Bury Strangers” que tocaram pela primeira vez em Portugal e alguns concertos que nunca vou esquecer.

O que achas da cena Psych Portuguesa?    

Nick Allport – Ainda estou a descobrir, mas já encontrei bandas como os Black Bombaim. Normalmente são as bandas que vêm ter connosco, durante os concertos e deixam um CD. No geral acho que a cena alternativa portuguesa é boa, mas é muito difícil para as bandas nacionais ganharem destaque e relevância, mais do que nos Estados Unidos e no Reino Unido. É mais fácil uma banda de Londres ou dos Estados Unidos chegar ao palco.

Acredito que é difícil as bandas portuguesas mostrarem-se ao resto da Europa. Se querem mesmo ter sucesso têm de se fazer à estrada.

Mas uma vez mais, os Black Bombaim são muito bons, têm um agente e “estão na estrada”, portanto  acredito que é possível chegar lá. Acho que há cada vez mais consciência que este tipo de bandas portuguesas são boas.

Os Dreamweapon por exemplo, integraram-se com a cena. O André (vocalista dos Dreamweapon) viaja, vê concertos e conhece as bandas. Acho que esta atitude é muito importante para te mostrares ao mundo.

Isso é uma das coisas que tentamos com as Cartaxo Sessions. Juntamos as bandas estrangeiras com as portuguesas.  Jantam juntas, estão no mesmo camarim, falam e conhecem-se uns aos outros.

Achas que o Reverence é um passo natural a seguir às Cartaxo Sessions?

Nick Allport – Em certa medida é. Eu nunca quis fazer um evento tão grande. Seria só com 4, 5 ou 8 bandas em cada dia. Inicialmente falámos em fazer o Reverence na praça de touros do Cartaxo. Acabou por ser reencaminhado para Valada.

O principal é que, para estas bandas todas, é muito caro estarem na estrada. Quando tocam em locais mais pequenos pela Europa, só o fazem para 50, 100 pessoas. Viste nas Cartaxo Sessions, algumas destas bandas, os Asteroid #4 e os Holy Wave por exemplo, são bandas pouco conhecidas  e vêm tocar ao Cartaxo para 60 ou 70 pessoas.

Num evento como o Reverence terão muito mais assistência nos concertos, podem ganhar mais dinheiro, tocar para mais público e vender mais merchandising. Por isso, é mais fácil as pessoas virem a um evento desta dimensão.

Foram vendidos bilhetes para Espanha, Reino Unido, Itália e outros países não foi?

Nick Allport – Sim, vendemos muitos bilhetes, bué para o Reino Unido. Hoje estava a falar com um amigo que vem de Berlim com 6 amigos, vêm pessoas da Escandinávia, vamos ter muitos jornalistas estrangeiros, da Kerrang, da Drowned in Sound e da The Quietus.

Nick Allport

Foto: Jorge Pereira

Se virmos bem, nunca ninguém escreve sobre esta zona de Portugal. É sempre Lisboa, Algarve, Porto. É muito bom para nós revelar Valada.

Como é que os nativos vêem um festival desta dimensão aqui? Tiveste algum feedback deles?

Nick Allport – Sim, falei com alguns deles e estão com um feeling positivo. As pessoas de cá têm-nos pedido para que façamos acontecer. Pedro Ribeiro, o presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, nasceu em Valada e foi o responsável pelo primeiro Festival do Tejo . Portanto, de certa forma, Valada já está habituada a estas andanças.

Obviamente, acho que algumas delas estão preocupadas por receberem todos estes “weirdos”, música estranha e cenas. Vamos lá ver, já viste bandas nas Cartaxo Sessions, elas não são bandas estranhas, são apenas pequenas.

Acho que todos devem ver o Reverence como uma excelente oportunidade de promover esta zona, a gastronomia e o vinho.

Foi fácil preparar um festival com esta dimensão?

Nick Allport – Foi surpreendentemente fácil. O mais difícil foi contratar as bandas. Assim que arranjámos os “Big Ones”, Eletric Wizard e Graveyard por exemplo, tudo correu naturalmente.

Eu nunca produzi um festival. Apenas juntei pessoas em concertos para dar lucro. Deixo a produção a cargo das pessoas certas. Não sou eu quem organiza os palcos. Quem o faz são os tipos do Milhões de Festa. Contratei pessoas para cuidarem das bandas, da comida e dessas coisas. Eu apenas juntei tudo. Para mim, só acredito que aconteceu quando o vir realmente.

Todas as pessoas envolvidas já são experientes e produziram eventos enormes.  Sabem o que fazem.  Realmente, Portugal tem um grande histórico de festivais, festas e essas cenas. Quer dizer, há festivais todas as semanas. É um país habituado a este tipo de coisas.

O que estamos a fazer é único, estamos a usar o modelo britânico: começar cedo, vários palcos ao mesmo tempo e as primeiras bandas a tocarem ao meio dia. Mas vamos misturá-lo com o modelo português: Tudo acaba muito tarde. As bandas estrangeiras não estão habituadas a isto. No Reino Unido acabam de tocar às 3 ou 4 da manhã. Vai ser interessante de se ver.

Há uma banda a tocar as 6 da manhã?  Rising Sun Experience?

Nick Allport – Acho que tocam por volta das 5, mas como é que sabes isso?

Lembro-me de ter visto em algum lado… Não sei. Mas tenho a ideia de ter lido algures.´

Não sei se os horários já saíram, mas pelos vistos devem ter saído.

De qualquer maneira, sim, vai ser uma maratona de bandas.

Conseguiste reunir a estrutura humana para produzir o festival?

Nick Allport – Basicamente, a “Crew” do Milhões de Festa está a produzir o evento. A infra-estrutura do festival parte daí. Há uma equipa de cinco pessoas que vai colocar a vedação. Há uma equipa só para os bares. Do Cartaxo, temos o H Collective. A equipa da restauração também é de cá e de Santarém.

A ideia do Festival é proporcionar uma experiência para além da música. Algo relacionado com a cultura portuguesa. Nada de Mcdonalds e Pizza Hut, mas marisco, porco assado e assim.Nick Allport

Vamos lá ver, este sítio é fantástico. Espero, e tenho a certeza, que as pessoas vão estar aqui pela praia e vão adorar o local.

Vai acontecer uma edição em 2015? E por aí adiante?

Nick Allport – É difícil de dizer. Neste momento já estamos a pensar no ano que vem. Mas tudo depende do sucesso desta edição. Imagina que vêm 100 pessoas. Vai ser um desastre. Mas… isso não vai acontecer.

Acho que vai ser um sucesso. Tenho um bom “feeling” acerca disso. Pode ficar um pouco “bamboleante” (shamble) às vezes,  mas vai correr bem.

Algumas bandas na Wishlist para o ano que vem?

Nick Allport – Sim, Brian Jonestown Massacre era uma banda que queríamos mesmo. É estranho, porque as bandas que contratámos, aceitaram o convite, coisa que não estávamos à espera.

Muitas bandas vieram ter connosco, mas já não havia espaço para tocarem. Demorou muito tempo a arranjar bandas. Quer dizer, este é um festival novo, as pessoas vão… não diria suspeitar, mas estar cautelosas com a primeira edição.

Mas as bandas que queríamos mesmo trazer era Brian Jonestown Massacre e Ghost. Os primeiros estão em Tourné pela Europa e os segundos pela América do Sul. Vamos tentar trazê-los para o ano que vem. Brian Jonestown têm de vir a Portugal, definitivamente.

Ok Nick, obrigado.

Obrigado também.


 

Lembramos que os bilhetes podem ser comprados via Bilheteira Online, ou nos locais habituais (Fnac, Worten, CTT, etc). Incluem o passe de 2 dias, que custa €60 até 31 de Julho; 70 euros depois desta data e o bilhete diário que tem o preço de 38 euros.

A localidade de Valada é facilmente acessível de comboio a partir da estação de Reguengo/Vale da Pedra (4,6 Km) A ligação entre a estação e o festival  está assegurada por autocarros entre Reguengo e o recinto do Reverence, durante os dois dias do festival. Estacionamento e parque de campismo, também estão garantidos pela organização. Mais info: Reverence Valada.

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3 thoughts on “Como Nick Allport trouxe a cena psych para o Ribatejo”

  1. Luis Moniz says:

    Bom artigo.
    Sigo com atenção este projecto. Parabéns.
    Link do artigo publicado no grupo de música LL em https://www.facebook.com/pages/LL/1454199398170716
    (já enviado convite)

    Cumprimentos
    Luis Moniz

    1. Fernando Valente says:

      Obrigado pela motivação Luis Moniz 🙂 Um abraço.

  2. Pingback: Entrevista - Nick Allport e a sequela Reverence - Buzzstop
  3. Trackback: Entrevista - Nick Allport e a sequela Reverence - Buzzstop

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